quarta-feira, 9 de dezembro de 2009

Ana Cristina Cesar: uma doçura venenosa de tão funda - urtiga! n°9


«É sempre mais difícilancorar um navio no espaço»
Ana Cristina Cesar


Ana C., como assinava, está entre os principais poetas representantes da literatura dita marginal, junto com Paulo Leminski, Cacaso, Francisco Alvim e Waly Salomão. Foi uma poeta que inovou, escrevendo de forma muito peculiar. Uma espécie de Frida Khalo. Assim como a pintora se auto-retratou em sua pintura, Ana se revelou em suas poesias, em seus poemas-prosa. Escreveu em primeira pessoa, conferindo a sua obra um caráter confessional. Em palavras poéticas, questionou-se: «Pergunto aqui se sou louca/ quem quer saberá dizer/ Pergunto mais, se sou sã/ E ainda mais, se sou eu/ Que uso o viés pra amar/ E finjo fingir que finjo/ Adorar o fingimento/ Fingindo que sou fingida/ Pergunto aqui meus senhores/ Quem é a loura donzela/ Que se chama Ana Cristina/ E que se diz ser alguém/ É um fenômeno mor/ ou é um lapso sutil?», e convicta defendeu: «Forma sem norma/ defesa cotidiana/ conteúdo tudo/ abranges uma Ana.» Enfim, Ana C. traduziu-se em poesia, transformou-se em arte. E quem finge que finge, adora dizer a verdade. Ana nasceu em 2 de janeiro de 1952, no Rio de Janeiro. Era de família culta e de classe média. Desde pequena, sentia uma forte atração pela literatura. Mesmo sem ser alfabetizada, com apenas quatro anos já recitava poemas para que os adultos escrevessem. Escrevia compulsivamente, “escrevo in loco, sem literatura”. Foi apaixonada por Drummond, Pessoa, Baudelaire, mas o que exerceu mais influência sobre a escritora carioca foi a literatura inglesa de Emily Dickinson, Sylvia Plath e Katherine Mansfield. Sua vida foi toda voltada para a arte. Estudou literatura, tradução e cinema, formou-se em Letras na PUC do Rio de Janeiro, fez mestrado em comunicação na UFRJ, e mestrado em tradução na Inglaterra na Universidade de Essex.Escreveu para jornais, revistas, foi jornalista, deu aulas e publicou de forma independente seus livros: Cenas de Abril, Correspondências Completas e Literatura não é documento. Mais tarde os dois primeiros reunidos, junto com Luvas de pelica no livro A teus pés, pela editora Ática. Postumamente, foram lançados: Inéditos e dispersos e Crítica e tradução.


Na leitura de seus poemas vemos sua imagem. Ela embriagou-se da liberdade da forma e misturou prosa com poesia. Armando Freitas Filho, escritor e amigo íntimo de Ana, diz no prefácio de A teus pés: «A prioridade volta a ser pelo semântico, e se conteúdo e forma são mesmo dissociáveis, aquele é que determina esta. O resultado que daí advém é o de um texto quase sempre na primeira pessoa, confessional, que está próximo do formato do querido diário adolescente, que dialoga com um interlocutor mutante, misto de pessoa e personagem».


A escritora de A teus pés ficou conhecida mundialmente, principalmente por fazer parte do livro 26 Poetas Hoje, organizado por Heloísa Buarque de Holanda, que foi sua professora. A fortuna crítica sobre a vida e a obra da escritora ainda é muito escassa, porém cada vez mais ela está se tornando referência nos estudos da literatura marginal, pois como disse Mariana Várzea em seu ensaio intitulado «Ana Cristina César ou o vôo da águia»: «Ana C. foi a própria encarnação da modernidade. Soube ser feminina sem ser feminista, sem estar ideologicamente presa a nada. Talvez por isso, tenha morrido cedo, fazendo sobre nossa terra uma passagem permanente. O lugar que ocupa como poeta é na linha do horizonte - virtual e veloz. Seu verso, que pertenceu à vertente cultivada da geração que apareceu em 70, é, hoje, a pedra fundamental de toda a poesia que se quer nova». E ainda hoje são encontrados escritos inéditos da poeta.


Sua poesia é forte, cortante, as palavras que utiliza são suculentas, escorregadias: lubrificadas: «Olho muito tempo o corpo de um poema/ até perder de vista o que não seja corpo/ e sentir separado dentre os dentes/ um filete de sangue/ nas gengivas». Manuel Ricardo de Lima escreveu sobre a poeta: «Ana escreveu uma poesia que dialoga intensivamente com a página em que ela está sendo escrita, uma espécie de andamento musical, quase síncope». Armando Freitas Filho disse que Ana «queria pegar o pássaro sem interromper seu vôo», tentando, assim, chegar aonde não se chega em vida e portanto resolveu sair de cena deste mundo cedo para poder «perceber o invislumbrável no levíssimo que sobrevoava», e em 29 de outubro de 1983 se suicidou, criou asas para voar, como escreveu: «eu não sabia que virar pelo avesso era uma experiência mortal». A morte foi a solução para sua realização, para sua dúvidas, para seu vôo: «Não verei mais a lua de perto/ Talvez me irrite pisar no impisável/ E a morte deve ser gostosa/ Recheada com marchemélou/ Uma lâmpada queimada me contempla/ Eu dentro do templo chuto o tempo/ Uma só palavra me delineia/ VORAZ/ E em breve a sombra se dilui,/ Se perde o anjo». Essa foi Ana C. uma mulher que soube tornar-se arte em pessoa: «a ponto de partir, já sei/ que nossos olhos/ sorriam para sempre/ na distância./ Parece pouco?/ Chão de sal grosso, e ouro que se racha./ A ponto de partir, já sei que nossos olhos sorriem na distância/ lentes escuríssimas sob os pilotis». Sua poesia se mistura com sangue quente, é ardente e devoradora, ler sua arte literária é também tornar-se uma Ana.


Karine Bueno da Costa

Acadêmica de Letras da FAFIUV

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